Through Waves

A Música das Outras Esferas.

Com pouca frequência encontramos os tesouros escondidos no cenário da música independente: sua beleza inegável, seu misticismo e acima de tudo, sua honestidade. O projeto musical THROUGH WAVES, encabeçado pelo curitibano Raine Holtz é um inquietante e charmoso exemplo deste fato, por vezes negligenciado.

Uma delicada mistura de rock alternativo, folk e world music, influências clássicas e variantes de diferentes pólos musicais (do celta até ritmos árabes do oriente-médio e tradicionalismo bretão), THROUGH WAVES tece com elegância sua arte misteriosa e conceitual, criando um mitológico e inexplorado novo mundo e cantando sobre a fragilidade emocional da condição humana. Embora confessadamente triste (devido à personalidade do próprio autor), o projeto torna-se uma documentação da universalidade dos nossos sentimentos, medos e desilusões; mas ainda sim, carrega consigo a esperança de não se estar só, e é aí que reside a verdadeira beleza da música de Raine: compartilhada para que algo bom possa surgir em quem a ouve.

Em meio ao caos de música repetitiva, vazia e não inspiradora que atualmente consumimos, THROUGH WAVES abre seu espaço com uma personalidade despretensiosa. Recomendado para aqueles que buscam mais que um mero CD para ouvir de vez em quando: uma verdadeira viagem aos confins do oceano que existe em cada um de nós.

Sobre Raine Holtz

Em suas próprias palavras.

“Eu não sei o que aconteceu com os últimos vinte anos da minha vida. Presumindo ser apenas um breve período de tempo, tendo em vista que cobre meu nascimento e os anos de meu desenvolvimento infantil, você poderia naturalmente se inclinar a achar que é uma memória desnecessária, e talvez seja. Mas deve haver algo naqueles anos que eu deveria estar ciente, algo que pudesse explicar o que me causou esta infinita tristeza, e, portanto, minha necessidade de criar música. Eu não me lembro de nada, salvo um vago prospecto que faz semi-sentido.

Eu consigo recordar lembranças borradas da minha antes tão constante tentativa de me tornar parte do mundo: minha solidão (auto-induzida ou não), sempre a “criança estranha”, desajustado em virtualmente todos os ambientes em que uma criança deveria ser somente uma criança; meu crescente gosto por um mundo paralelo que, funcionando bem para um menino, simplesmente não seria aceitável na vida de um homem adulto; meus romances falhos que jamais envolveram amor de minha parte (pois eu costumava me achar incapaz de sentir tal coisa); e finalmente a eventual paixão que senti por uma pessoa, naturalmente culminando somente em mais tristeza... É tudo que meu cérebro consegue reunir. Toda a minha vida até este momento foi um enorme fracasso em ser uma pessoa normal, e é isso que contribuiu para a minha seclusão, minhas viagens oceânicas buscando asilo de um mundo que eu não podia culpar pela minha condição. Penso que seria fácil dizer que passei meus últimos anos em “depressão”, mas em meu caso, isso não seria completamente verdadeiro. Eu nunca fui inteiramente triste, muito menos feliz de qualquer forma: eu fui e ainda sou um copo de nada. O que então sobra para eu fazer além de criar beleza das profundezas da minha feiúra insuportável? É por isso que o THROUGH WAVES existe. Esta é minha única maneira de lidar com o cotidiano da vida que sou forçado a viver, já que suicídio não é mais uma alternativa viável para mim (pois causaria problemas demais nos meus próximos níveis existenciais).

Eu sinceramente espero que, através das ondas do meu descontentamento, meu trabalho possa servir como um intermédio para o ouvinte encontrar algo bom, verdadeiro e bonito dentro de si... E esquecer – pelo menos durante o breve momento que uma canção dura – o terrível fardo da vida.”

The Schooner Harbour

O Refúgio para os Desafortunados.

Em 2006, Raine Holtz criou o THROUGH WAVES na fria cidade de Curitiba, Brasil. Buscando independência e completa autonomia para produzir e cuidar de sua música, ele também criou o The Schooner Harbour, seu “selo independente”, por assim dizer, através do qual ele pode compartilhar seu trabalho com o mundo. Sendo, em verdade mais como um estúdio caseiro e um conceito utópico, The Schooner Harbour tornou-se a confiança que ele precisava para adotar a onda “faça você mesmo” que rapidamente se alastra pela indústria musical, já que nunca houve nenhum apoio ou interesse da parte de outras gravadoras para cuidar do projeto. Dependendo unicamente da boa vontade da pequena, mas fiel base de fãs, The Schooner Harbour é a prova de que trabalho árduo e verdadeira paixão são as ferramentas necessárias para realizar um sonho; e indo além do mero conceito de “selo”, também é o porto de uma praia distante, refúgio para os desafortunados, alienados e outras almas perdidas em busca de descanso, compreensão e paz.

Este é o lar de THROUGH WAVES, a música mais bela que o mundo jamais ouviu.